Gadol Elohai - Joshua Aaaron

27.6.07

A quintinha do meu avô

A quintinha dos meus avós era o lugar das fantasias da minha infância. Era lá que encontrava os primos e dormíamos confortavelmente no chão, quando as famílias passavam lá todas a noite.
Nessa quintinha há um pinheiro, que foi vaso quando tinha 5 anos e que hoje ultrapassa o telhado da casa.
Ainda se lá encontra a grande pereira, ao fundo da vinha, depois do poço, que escalávamos nos dias de calor, em busca de sombra fresca, enquanto sacudíamos as formigas que nos trepavam pernas acima.
Recordo-me de um piquenique com fatias de pão barrado com tulicreme, com os primos. Recordo-me das aventuras de ficção científica, com naves improvisadas. Lembro-me da chave velha que encontrámos e das histórias que construímos à volta dela. A figueira era o limite. Não passávamos dali. Havia o perigo dos caçadores. Debaixo dela contavam-se os segredos.
A vinha, sempre cuidada, sempre fértil, pelas mãos do meu avô. Que tinha uma pequena laranjeira reservada, com as melhores laranjas só para os netos. Ficava perto da romeira, que nunca percebi se era "nossa" ou se do vizinho.
À noite contavam-se histórias nas escadinhas da casa, junto ao pequeno jardim que quase sempre cheirava a violetas... onde apanhávamos também caracóis, nos dias chuvosos, muitos nas folhas dos lírios.
....
Um dia, o casarão de pedra da vinha do lado, que quase sempre fazia parte dos meus sonhos foi derrubado. De seguida a vinha arrancada. Em vez da frágil sebe que nos separava, ergueu-se um enorme muro de cimento. Aos poucos, os terrenos circunvizinhos terraplanados e industrializados.
O meu avô parte. A quintinha fica, mas sem encanto. Entregue à idosa avó.
A vinha desaparece debaixo de enormes ervas secas que se erguem em direcção ao céu. As árvores de pomar contorcem-se com a falta de quem cuide delas. O jardim que era colorido e cheiroso, passou a banalidade. Os salgueiros desapareceram. Perderam-se sombras...
Há uns dias ... uma placa à porta da quintinha. VENDE-SE. Terreno industrial.
Qual não será a dor do nosso Pai quando deixamos de dar bom fruto?

1 comentário:

David Bengelsdorff disse...

Também tive o privilégio de ter avós, e depois apenas avó, com uma horta. A grande figueira, o molhar os pés nas regueiras em terra que levavam a água aos canteiros, sim, tudo isso são recordações que marcam a vida. Mas, tal como no teu caso, tudo passa.
Mas gosto de pensar que se tivermos a nossa "horta", a nossa "quintinha", bem cuidada será bom para nós e também para os outros.